Tenho sede, uma absurda vontade de goles grandes de palavras "malditas" (...)

Poesia por Sulla Mino...Desnudo













Preciso de um tempo ou

o resto da vida para emprestar meu fingir

ao meu pensamento,

amando e não esquecendo,

chorando e sentindo saudade,

dizendo até já e não pensar no adeus...

Empresto lágrimas e palavras,

noites mal dormidas,

punhado e destroço de versos.

Temo meu pensamento aconchegar-se

em alguém anônimo e indiscreto,

intruso e deprimido,

numa aventura louca sob um comando

invisível,

ir no fundo como uma música gospel e

vê uma deusa sangrando...

Palpite do medo, nenhum pensamento

seria tão descalço,

preciso de um pouco mais de tempo,

para rabiscar pavor na minha sombra fardada.

Meu corpo desnudo jogado na poça,

indo à falência,

sinto a chuva caindo lentamente,

tento acordar e não consigo,

tento levantar e não sou forte,

não posso com o meu pensamento, prefiro desistir,

não preciso de tempo algum, nem fingir,

fecho meus olhos

e sei que agora Deus não dorme.

Poesia por Mário Rezende...MOÇA DOS OLHOS CINZENTOS II















Hoje, manhã bonita,
o passeio dos seus olhos
encontrou, por acaso, os meus.
Péssimo instante,
pois o meu olhar
jazia cansado e sem brilho
por uma noite mal dormida,
enquanto o dela
cintilava feliz.
Na certa, no lapso do piscar
perguntou aos seus botões,
por que será o olhar quase morto desse moço?
E, naturalmente, por ali não encontrar
o que na hora lhe agradaria,
desviou-se a procurar
algo mais interessante
para as pérolas do seu semblante.


mariorecanto@yahoo.com.br

Poesia por Sulla Mino...Avesso













O avesso das coisas incertas

me fez mutante...

E moldo meu corpo,

em mais uma tentativa sã.

Escrava, noviça,

carente e rebelde.

Então, explode o pavio

curto dentro de mim.

Abstrata e enigmática,

peço: Silêncio!

Gira o mundo,

Estou nele ao contrária.

Reflexão








Nada mais literário e enigmático que refletir palavras de um grande artista, me torno herdeira de grandes sonhos, seus rascunhos são meus tesouros e ricamente sigo nas minhas poucas palavras.

“Como expressar nas palavras, os gestos que queria fazer, as coisas que gostaria de ver, os belos amanhecer e entardecer, e o sombrio morrer... faltam-se falas”

Renato Russo

Contos que conto ... Lícia, a bela ruiva.


A bela ruiva, de pele sedosa e lábios sedutores começa sua noite no meio da pista de dança de uma badalada casa noturna em São Paulo.

O contorno do seu corpo, o rebolado do seu fino quadril e o jeito tracejado se suas mãos ao dançar e o contorno de suas pernas, que dava para notar ao longe, parecem suavemente de uma dançarina de Tango. Estou enganada, a música do recinto soa Techno ou algo parecido. Os traços suaves acompanhando o ritmo da música, o estranho som, sem letra, os toques sinistros rítmicos acelerados, Lícia parece estar em câmara lenta de tão formosa que é.

A bebida preferida já está fazendo efeito no paladar, nos reflexos tortuosos, as luzes ofuscas, a pista era o palco perfeito das alucinações, das satisfações e dos desejos.

A turma chega, homens e mulheres trajados de adolescentes rebeldes, irônicos, sem causa nem causas.

Mais bebidas, mais cigarros, mais risadas altas e berrantes e papos sem graça nenhuma, sem serventia alguma, sem conteúdo e tudo um verdadeiro glamour, alucinante, sem volta.

O rapaz sentado na primeira mesa ao lado do bar, uma taça de vinho e um pedaço de papel com algumas anotações, desde cedo ele observa a dama da noite, a bela ruiva, um verdadeiro galã ali tão solitário, o modelo perfeito para uma noite de aventura, pouca palavra bastou e depois de um olhar pedinte, fez seu convite à bela jovem.

Em menos de uma hora eles já eram o casal mais romântico da noite e Lícia queria história para contar no Blog mesmo.

Lá pelas tantas, o beijo já não eram tímidos, o passo da dança já não era tão distante e a bebida já não era mais a mesma e daí apenas o letreiro do lugar que chegavam servia de testemunha, como um abutre rondando a presa.

A sandália no canto do quarto, o meia-taça sobre o abajur, guimbas, notar de um dólar em canudinho no chão, seringas, a mesinha embaçada com pó...

Lícia deitada na cama, o corpo suado, o lençol amassado, o cabelo embaraçado, a vela com essência de morango pagada.

O quarto escuro, lembranças de instantes, o corpo a amostra de ninguém a sua frente, o silêncio reina.

Pegou no sono?

Simplesmente um corpo abandonado.

O latejo na rua normal.

O sol pela manhã invade pela brecha do cortinado e nem assim Lícia se movia, nenhum bom dia, apenas marcas avermelhadas no pescoço, nos braços e em sua volta restos de pecado, de uma loucura não medida.

Uma overdose sem amor.

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